quinta-feira, 16 de abril de 2020

Words Challenge: 1945 - Segunda Guerra Mundial

Olá amores,


Mais um Words Challenge para a conta e percebi que meus textos esse ano estão mais esperançosos, por mais difícil e tristes que alguns temas sejam, quero sempre trazer um lado bonito do que poderia ter acontecido. As palavras indicadas foram: oliva, único, musical, resultado, coruja e caneca. Espero que gostem e não se esqueçam de ler o texto da Pam no Interrupted Dreamer também!

Words Challenge: 1945 - Segunda Guerra Mundial

"Devagar, desço as escadas de madeira ouvindo uma coruja piar na árvore em frente a casa na qual estamos escondidos. Todos dormem. Ou será que fingem dormir? Eu cansei de fingir há mais ou menos um mês quando os vizinhos foram descobertos no meio da madrugada e levados ao campo de concetração mais próximo. Eu não posso arriscar. 

Meus dois filhos juntamente com três desconhecidos estão no andar de cima, pois não tenho como me dar ao luxo de deixá-los em privacidade. Estou bebendo uma água quente nessa caneca vermelha, pois o chá acabou ontem. Uma pena, porque eu bem que precisaria de uma chá de camomila para acalmar os nevos. Ando sempre como se estivéssemos por um fio.

Suspiro ao pensar no que meu marido faria caso estivesse aqui. Ele era tão corajoso, provavelmente, teríamos conseguido sair do país antes de tudo explodir. Ele tinha aqueles olhos verde oliva tão impressionantes que me faria acreditar até no impossível. Minha pequena Laura tem os mesmos olhos. Será que algum dia ela verá a liberdade novamente?

Não sei se fico minutos ou horas em pé, atrás daquelas pesadas cortinas. Só sinto uma mão em meu ombro e dou um salto achando que tudo acabara ali, naquele instante. Mas não. É apenas Elias, um dos rapazes que está conosco nesse esconderijo e eu logo pergunto assustada, mas ao sussurros:

- Está tudo bem? Minhas crianças?
- Calma, Amalia. Está tudo bem. Preciso que suba para ouvir o rádio. Não quis chamar os outros ainda, está muito cedo.
- Rádio? Há alguma notícia? - subimos apressados as escadas, fazendo um pouco mais de barulho do que deveríamos.

O aparelho, ainda ligado no volume mínimo, há muito deixou de ser nossa distração musical. Agora, ele era nosso único vínculo com o mundo externo. Terrível e doloroso mundo externo. 

Aproximo a orelha dos alto falantes e ouço ao meio de ruídos e chiados as palavras: suicídio de Hitler e rendição. Eu não acreditava no que estava ouvindo e pelo visto Elias também não já que precisava da minha sanidade para ajudá-lo a manter a esperança. 

Lembro de ter devolvido o rádio a ele, apenas por ver o aparelho em suas mãos, pois nada mais fazia sentido. Lágrimas de alegria ou tristeza escorriam pelo meu rosto, já que finalmente, havia chegado o momento de enfim termos esperanças. Esperanças, não certezas.

Elias queria sair dali naquele mesmo dia, juntamente com a Sra. Elza e o Sr. Abrão. Eu não. Depois de perder meu marido num descuido bobo, eu não cometeria o mesmo erro. O resultado da guerra parecia catastrófico mesmo por dentro daquelas paredes amareladas, como poderia sair às escuras com duas crianças a tira colo? 

Fui recriminada por todos eles conforme saiam de nosso esconderijo. Diziam que meus pequenos não poderiam continuar ali por mais nenhum dia. Eu concordava, mas o amor de mãe falava mais alto. Ali ainda parecia mais seguro do que a desconhecida situação política. Afinal, e se fosse apenas uma alarme falso? Alguma armadilha para nos pegar? Fiquei ali mais uma semana, passando fome e frio. Ficamos. Juntos, eu e meus filhos. No silêncio, pois a Sra. Elza levou o rádio consigo.

O verdadeiro alívio só veio quando novas tropas invadiram a casa para nos dizer que tudo estava bem, que estávamos seguros novamente. Infelizmente, nunca mais vi Elias, mas sei que foi ele quem pediu para as tropas virem ao meu encontro. Ele sabia que eu estava traumatizada o bastante para ter coragem de sair. E até hoje, depois de mais de 70 anos sou grata a Elias por ter salvo meus pequenos. Se estou partindo desse mundo apenas agora, é graças a ele. Se meus filhos voltaram a brincar ao ar livre, é graças ao corajoso Elias."


- Alessandra Salvia

12 comentários:

  1. Oi, Alessandra como vai? Muito bom o seu texto, parabéns! Por que você não publica contos já que você ainda não tem confiança de escrever um livro. Você escreve super bem, deveria ao menos tentar. De todo modo ficou excelente. Vejo que você se sai muito bem escrevendo sobre assuntos históricos. Se cuida. Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  2. Oieee já assisti esse filme, realmente é maravilhoso . Beijos

    Segredosdamarii.blogspot.com

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    1. Acho que você leu errado, não é um texto do filme, Mariana.

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  3. parabens pelo texto Alessandra
    um texto firme consistente
    voce conseguiu transmitir toda a tensâo que a situaćao merecia
    sempre leio seus textos mas esse tem algo a mais. maturidade .acho
    a escrita está perfeita

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  4. Oiiii,
    Nossa! Esse seu texto foi forte!
    Você escreve muito bem, já pensou em escrever um livro?
    Pense nisso😉
    Bjo

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  5. Adoro quando a gente enche de esperança e se enche de esperança ao ver como desafiamos a gente e escrevemos esses textos....
    Sou muito grata a você! E QUE VENHAM MAIS DESAFIOS
    beijocas, Alê!

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  6. Olá, Ale.
    Que texto lindo. Adorei toda a carga emocional que você colocou no texto porque deu para sentir um pouco a angustia de quem viveu esse período tão dificil da nossa história. E assim como estamos vivendo dias difíceis hoje a esperança tem que prevalecer. Mais uma vez parabéns.

    Prefácio

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